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José Carlos Capinan faz 80 anos como bravo poeta guerrilheiro da canção popular brasileira

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José Carlos Capinan faz 80 anos como bravo poeta guerrilheiro da canção popular brasileira


♪ MEMÓRIA – Nascido em 19 de fevereiro de 1941 em Esplanada (BA), cidade litorânea do interior da Bahia, o poeta José Carlos Capinan completa hoje 80 anos no posto de um dos letristas mais combatentes da música popular produzida no Brasil a partir da década de 1960.

Também escritor e jornalista, Capinan se notabilizou pela poesia aguerrida das letras que escreveu para músicas de compositores como Edu Lobo, Gilberto Gil, Jards Macalé e Paulinho da Viola.

Pela postura engajada de poeta que acredita no uso da palavra (en)cantada como arma na guerra por democracia e e justiça social, o letrista é um dos entrevistados para a ainda inédita série documental O silêncio que canta por liberdade, prevista para estrear no segundo semestre deste ano de 2021.

Idealizada por Omar Mazargão e dirigida por Úrsula Corona, a série mostra em oito episódios a saga de artistas nordestinos contra a opressão da ditadura militar instaurada no Brasil a partir de 1964, ano em que Capinan chegou a São Paulo (SP), vindo de Salvador (BA), onde se envolvera com teatro e política estudantil.

O auge da repressão política no Brasil coincidiu com a ascensão e apogeu de Capinan como letrista no universo da MPB criada e projetada a partir de 1965 na era dos festivais.

Revelado como letrista nesse mesmo ano de 1965 na voz de Maria Bethânia, cantora que gravou Viramundo (Gilberto Gil e José Carlos Capinan) – tema do teatralizado show Arena canta Bahia (1965) – para single editado em outubro de 1965, Capinan foi ideologicamente formado pelo Centro Popular de Cultura (o CPC da UNE) de Salvador (BA), cidade para onde o então emergente poeta migrara em 1960 para cursar direito em universidade da capital da Bahia.

Foi no CPC que Capinan travou os primeiros contatos com Caetano Veloso e Gilberto Gil, arquitetos da Tropicália, movimento pop de 1967 / 1968 que teve em Capinan um dos principais letristas. Tanto que Capinan logo firmaria parceria com Caetano e Gil em 1965, ano em que compôs com ambos a música da trilha sonora do filme Viramundo, engajado documentário do cineasta Geraldo Sarno sobre o fluxo migratório do povo nordestino rumo às capitais do sudeste do Brasil.

A música-título do filme explicitou a influência da música nordestina na poética do letrista. Essa vertente também ficaria evidenciada em Ponteio, baião moderno que venceu festival de 1967, alicerçando a parceria de Capinan com Edu Lobo, com quem o letrista assinaria posteriormente Viola fora de moda (1973) e Repente (1976).

José Carlos Capinan tem obra musical construída com forte ideologia social  — Foto: Victor Carvalho / Divulgação

José Carlos Capinan tem obra musical construída com forte ideologia social — Foto: Victor Carvalho / Divulgação

Como parceiro de Caetano, Capinan assinou os versos de BoninaClarice e Maria Maria – três músicas lançadas em 1968, sendo que somente Clarice alcançou repercussão. Com Gil, a parceria foi mais extensa e popular, gerando canções como Ladainha (1966), Misere nobis (1968) e o sucesso Soy loco por ti, America (1968), tributo ao revolucionário argentino Che Guevara (1928 – 1967), feito por Gil e Capinan no embalo da emoção com a morte do guerrilheiro marxista associado à Revolução Cubana. Coube a Caetano lançar Soy loco por ti, America no primeiro álbum solo do cantor.

Segunda música de Capinan que chegou ao disco, Ladainha foi apresentada em 1966 na voz da sempre antenada Nara Leão (1942 – 1989), cantora que lançou a música em single e a incluiu depois em álbum sintomaticamente intitulado Manhã de liberdade (1966). Já Misere nobis integrou o repertório do álbum-manifesto Tropicália ou panis et circensis (1968).

O endurecimento do regime militar, a partir de dezembro de 1968, se refletiu na poética musical de Capinan, sobretudo nas letras feitas para músicas de Jards Macalé. Gothan city (1969), Movimento dos barcos (1971) e Farinha do desprezo (1972), entre outras composições, espelharam um estado d'alma mais sombrio que dominava a parcela mais consciente da população do Brasil na primeira metade dos anos 1970.

O clima estava sufocante. O mar estava revolto. Mas, em vez de lamentar o eterno movimento dos marcos, Capinan foi para outros portos seguros sem abandonar a guerra.

O poeta abriu espaço para o lirismo existencialista ao escrever letras para sambas e choros de Paulinho da Viola, parceiro de O acaso não tem pressa (1971), Vinhos finos cristais (1971), Coração imprudente (1972), Orgulho (1972), Sofrer (1978), Viver sem amor (1981), Mais que a lei da gravidade (1983) e Prisma luminoso (1983). Com Paulinho, cabe lembrar, Capinan já fizera Canção para Maria em 1966.

Em qualquer tom, a poesia de José Carlos Capinan nunca desbotou, seja exalando o cheiro brejeiro de Moça bonita (parceria com Geraldo Azevedo, de 1981), seja expondo as cores do lirismo romântico de Papel machê (1984), hit popular da breve parceria com João Bosco.

Contudo, é por nunca ter fugido à luta com a poesia guerrilheira da canção popular que José Carlos Capinan chega aos 80 anos, incansável, sempre a postos, esperando uma manhã que cante pela plena liberdade.


 

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