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Arnaldo Antunes e o pianista Vitor Araújo concentram emoções no refinado mergulho interior do álbum 'Lágrimas no mar'


♪ Aos 40 anos de carreira, iniciada em 1981 como vocalista e compositor da banda Titãs, Arnaldo Augusto Nora Antunes Filho se tornou grande nome da música brasileira em trajetória que extrapolou o círculo do rock em torno do qual gravita o grupo que lhe deu fama e do qual se desligou em 1992 para iniciar carreira solo.

Nessa multimídia trajetória individual, o cantor, compositor, músico, poeta e artista visual paulistano de atuais 61 anos construiu pontes com artistas de diversos gêneros e gerações.

Erguida no show O real resiste (2020), a ponte com Vitor Araújo, pianista pernambucano de 32 anos, se estende para o álbum Lágrimas no mar, gravado pelo duo no Canto da Coruja, estúdio situado em sítio do interior do estado de São Paulo onde Arnaldo deu forma aos dois últimos álbuns do artista, RSTUVXZ (2018) e O real resiste (2020).

Prodígio do piano que quebra fronteiras entre a música popular e a dita erudita, Vitor Araújo nasceu no Recife (PE) em 1989 quando Arnaldo já esboçava assinatura artística que ficou mais delineada na carreira solo pós-Titãs.

Lançado em 1º de dezembro, o álbum Lágrimas no mar teve o ciclo iniciado em 28 de outubro com a edição do single que apresentou a abordagem de música do compositor Itamar Assumpção (1949 – 2003), Fim de festa, lançada um ano após a morte do autor em álbum, Isso vai dar repercussão (2004), gravado por Itamar com o percussionista com Naná Vasconcelos (1944 – 2016). O single Fim de festa anunciou o clima noturno de Lágrimas no mar, álbum de emoções concentradas e interiorizadas.

Denso disco de tom cinzento, retratado nas imagens promocionais do fotógrafo José de Holanda e reiterado pelo registro de Como 2 e 2 (Caetano Veloso, 1971) em harmonioso duo vocal de Arnaldo com a cantora Marcia Xavier, Lágrimas no mar apresenta quatro músicas inéditas em nove faixas, todas com arranjos para piano criados por Araújo.

As joias do lote de novidades são as canções Enquanto passa outro verão – música com melodia de Cezar Mendes e letra de Arnaldo em afinada parceria estendida no disco com Umbigo – e Lágrimas no mar (Pedro Baby, João Moreira, Arnaldo Antunes e Marcia Xavier), balada que batiza o álbum, tendo sido gravada com o toque adicional do violão (de nylon) e da guitarra de Pedro Baby, coautor da canção.

Em Enquanto passa outro verão, Arnaldo versa poeticamente sobre o imobilismo causado pelo amor e pela automação da emoções humanas. Faixa gravada em atmosfera de música de câmara, Enquanto passa outro verão tem clima nublado, mas o tempo desanuvia um pouco em Lágrimas no mar, afirmação da perenidade do amor.

Esse tempo incerto justifica a lembrança de Manhãs de love (Erasmo Carlos e Arnaldo Antunes, 2014), flash noturno da solidão que retém na memória, com dose de esperança, os tempos felizes de amor que se foi. Mesmo bafejado pela luz da esperança, esse tempo jamais abre totalmente ao longo do disco em sintonia com o toque tenso de Vitor Araújo.

“Tudo em volta está deserto”, reforçam as vozes de Arnaldo Antunes e Marcia Xavier no canto uníssono do verso que sintetiza a já mencionada canção Como 2 e 2, entoada entre efeitos, ruídos e dissonâncias do piano de Vitor Araújo.

Faixa em que o toque do piano soa delicado, Longe (Marcelo Jeneci, Betão Aguiar e Arnaldo Antunes, 2009) corrobora a sensação de que, no disco Lágrimas no mar, Arnaldo Antunes e Vitor Araújo estão mergulhados nas próprias mentes, imersos em universo particular. A delicadeza do piano e do canto é bisada na já mencionada Umbigo, acalanto feito por Arnaldo com Cezar Mendes para o filho de Tom Veloso (Benjamim, nascido em maio de 2020) e cantado no disco com Marcia Xavier.

Pelo fato de o álbum Lágrimas no mar ser basicamente um mergulho interior dos artistas, a regravação do exteriorizado rock Fora de si (Arnaldo Antunes, 1995) quebra a dinâmica do disco, mesmo mantendo o clima angustiado e evidenciando a habilidade de Vitor Araújo para tirar sons percussivos das teclas do piano.

Quarta inédita do repertório, alocada no fecho do álbum, A não ser (Arnaldo Antunes, Alice Ruiz e João Bandeira) reconstitui o clima soturno de Lágrimas no mar, disco em que Arnaldo Antunes e Vitor Araújo estão dentro de si mesmos, afinados nessa imersão em emoções reais.


 

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