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João Bosco tem os 50 anos de carreira saudados em texto do filho e parceiro Francisco Bosco



♪ MEMÓRIA – Mineiro de Ponte Nova (MG), o cantor, compositor e violonista João Bosco tem pré-história musical vivida em Ouro Preto (MG), cidade onde, enquanto cursava a faculdade de engenharia, teve o caminho cruzado com o de Vinicius de Moraes (1913 – 1980), de quem se tornou parceiro em músicas nunca lançadas em disco.

Em que pese a precoce parceria com o poeta da canção e o fato de ter tocado na noite de Ouro Preto (MG), o marco zero da trajetória musical de Bosco é, no entender do próprio artista, o lançamento do primeiro disco em 1972. Uma das revelações da música brasileira naquele ano de 1972, Bosco debutou no mercado fonográfico ao lado de Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994), com quem dividiu o primeiro título da série Disco de bolso, iniciativa do jornal O Pasquim, semanário carioca de grande influência na cultura do Brasil na época.

O Disco de bolso era um single duplo de vinil que vinha encartado no jornal e que, no lado A, apresentava gravação inédita de um grande nome da música brasileira – o primeiro registro fonográfico do samba Águas de março, no caso de Jobim – enquanto lança nome novo no lado B.

O single duplo O tom de Antonio Carlos Jobim e o tal de João Bosco apresentou o artista mineiro com gravação de Agnus sei, música da então recente parceria firmada por Bosco com Aldir Blanc (1946 – 2020), bardo das letras com quem Bosco se afinaria em tabelinha fundamental na MPB dos anos 1970.

Tomando como ponto de partida a edição do Disco de bolso do Pasquim, Bosco celebra 50 anos de carreira em 2022 e tem a efeméride saudada em texto lapidar escrito pelo filho Francisco Bosco, compositor que se tornou parceiro letrista do pai a partir da década de 1990.

Capa do single duplo 'O tom de Antonio Carlos Jobim e o tal de João Bosco', da série 'Disco de bolso' — Foto: Reprodução

Capa do single duplo 'O tom de Antonio Carlos Jobim e o tal de João Bosco', da série 'Disco de bolso' — Foto: Reprodução

♪ Eis o texto de Francisco Bosco sobre os 50 anos de carreira de João Bosco postado nas redes sociais do artista:

“Há 50 anos, um “tal de João Bosco” era apresentado ao Brasil. Seu violão barroco, mineiro andaluz, encontrara o bardo do Rio profundo, de nome Aldir. E esse encontro mudaria a história da música brasileira.

A estreia, Agnus sei, com sua melodia misteriosa, de divisões surpreendentes, e sua letra profana e irônica, prefigurava as obras-primas por vir. O LP que se seguiu traz uma dupla ainda à procura da definição de seu estilo, embora já em alto nível.

Mas na obra seguinte, Caça à raposa, João e Aldir atingiram a perfeição: melodias contagiantes, sem serem vulgares; versos extraordinários, porém ao rés-do-chão. Crônica, crítica, humor, violência – o Brasil dos anos de chumbo estava ali cantado e decantado em forma máxima.

Daí em diante, a dupla sambou na cara da sociedade até que seus caminhos se descruzaram. Só, João tensionou por dentro a forma canção, implodindo-a, fazendo as palavras regressarem a seu estado primal de fonemas e o ritmo tomar conta de tudo. Tornou-se cabeça de nego, homem-música, gagabirou-se.

A partir daí, conviveriam em sua obra tanto a forma canção "redonda" – letra e música em casamento fechado a vácuo – quanto o empuxo para a música "pura", seja nos improvisos vocais, seja na expansão da forma canção, esgarçada por dentro por solos musicais.

É grande compositor (ao lado de diversos parceiros), grande violonista e grande cantor – ao mesmo tempo. Intuitivo e construtivo. Lírico e engenheiro. Foi gravado por renomados intérpretes – e só não foi mais porque sua música é tão pessoal que às vezes se revela irreprodutível. Muitas de suas canções se tornaram patrimônio cultural e individual dos brasileiros. Morou a vida inteira dentro da casca do seu violão, de onde mudou a música brasileira”.


 

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