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Teresa Cristina irradia alegria ao ecoar a ideologia do samba social de Zé Kétti


Título: Teresa Cristina canta Zé Kétti

Artista: Teresa Cristina – com o violonista Carlinhos Sete Cordas

Local: Teatro Claro Rio (Rio de Janeiro, RJ)

Data: 6 de novembro de 2021

Cotação: * * * *

♪ Quando Teresa Cristina se perfilou com visível alegria ao cantar o samba Diz que fui por aí (Zé Kétti e Hortênsio Rocha, 1964) no fecho do (primeiro) bis da estreia carioca do show em que dá voz à obra de Zé Kétti, a artista improvisou fala após o verso final “Eu estou por aí sempre pensando nela”. “A democracia, claro”, gracejou Teresa, deixando claro quem era ela na letra do famoso samba.

A fala foi pertinente, pois poucos compositores brasileiros construíram obra tão politizada quanto o carioca José Santos Flores (16 de setembro de 1921 – 14 de novembro de 1999), o Zé Kétti.

Dono de aguda consciência social, Zé Kétti deu voz e vez ao morro em sambas que ganharam popularidade nas décadas de 1950 e 1960, como Acender as velas (Zé Kétti, 1964), crônica do abandono das favelas pelo poder público. Sambas amplificados em filmes do Cinema Novo.

A notória conexão de Teresa Cristina com a ideologia social do samba de Zé Kétti agregou ao show legitimidade que já existiria somente pelo amor da cantora ao samba, gênero exaltado em A voz do morro (Zé Kétti, 1955) de forma esfuziante.

A voz do morro reluziu radiante no canto da artista na primeira apresentação do show Teresa Cristina canta Zé Kétti no Rio de Janeiro (RJ), cidade natal da intérprete e desse grande compositor que também foi ritmista e cantor.

Somente com o toque virtuoso do violão de Carlinhos Sete Cordas, Teresa Cristina mostrou aos cariocas o show que, a rigor, estreou há três anos quando a cantora e o violonista abordaram a obra de Zé Kétti em duas apresentações feitas na cidade de São Paulo (SP), em 8 e 9 de novembro de 2018, dentro do projeto Samba imenso, do Sesc.

Como 2021 é o ano do centenário de nascimento de Zé Kétti, festejado em 16 de setembro sem o devido alarde, a cantora remontou o show, gravado no Teatro Claro Rio para edição de álbum ao vivo e para gerar conteúdo audiovisual antes conhecido como DVD.

O show em torno da obra de Zé Kétti fecha a trilogia em que Teresa Cristina e Carlinhos Sete Cordas reavivam a obra de bambas do samba carioca. Iniciada com show com a obra de Cartola (1908 – 1980), a trilogia teve sequência com abordagem do repertório de Noel Rosa (1910 – 1937), sendo completada com o tributo a Zé Kétti ocupando o lugar cogitado inicialmente para Nelson Cavaquinho (1911 – 1986).

A troca, aliás, resultou acertada, pois Nelson – parceiro bissexto de Zé Kétti no nostálgico samba O meu pecado (1965) – já vem ganhando sucessivos tributos ao passo que o repertório de Zé Kétti ainda guarda joias no baú.

Além da ideologia que ainda faz sentido no Brasil de 2021, como Teresa Cristina provou ao dar voz a O favelado (Zé Kétti, 1964), samba do teatralizado show Opinião (1964 / 1965), há músicas de grande beleza melódica e poética na obra do compositor que estão sendo esquecidas com o tempo.

Nesse show sedutor, Teresa Cristina pesca pérolas como Praça 11, berço do samba (Zé Kétti, 1973), tema de alta e lírica carga poética.

Lirismo, aliás, é o que brotou das sete cordas de Carlinhos quando o músico acompanhou a cantora em Poema de botequim (Zé Kétti, 1967), número em que Teresa debocha marota de quem a chama pejorativamente de “cantora de botequim” – pelo fato de a artista ter surgido em cena em 1998 como vocalista do Grupo Semente em bar que revitalizou o circuito de samba e choro da Lapa, bairro boêmio do Centro carioca – sem ter noção de que a designação é motivo de orgulho para a cantora.

Violonista de presença discreta, mas nem por isso menos relevante, Carlinhos Sete Cordas pinta e borda somente com o toque do instrumento, sem exibicionismo, armando cama sempre segura para Teresa Cristina se deleitar com os sambas de Zé Kétti.

Embora seja cantora sem técnica especialmente notável, como se percebe quando Teresa dá voz ainda titubeante ao samba Opinião (Zé Kétti, 1964) na abertura do show, com as cortinas do teatro ainda fechadas, a intérprete se agiganta em cena pelo perfeito entendimento do que canta. A cantora se engrandece no palco pela alma e expressividade que imprime em cada música.

Após reviver a ode à boêmia feita em Madrugada (Zé Kétti, 1965), Teresa Cristina ecoou a desilusão amorosa que inspirou o samba Amor passageiro (Zé Kétti e Jorge Abdala, 1951) – sucesso no Carnaval de 1952 na voz da cantora Linda Batista (1919 – 1988) em gravação que alavancou a carreira do compositor – e a melancolia densa de Em tempo (Zé Kétti e H. Nogueira, 1973).

Vestida com elegância por Milton Castanheira, figurinista que caracterizou a cantora como terno branco evocativo da indumentária dos lendários malandros dos morros cariocas, com direito a um chapéu usado pela cantora em alguns números da segunda metade do show, Teresa Cristina se apresentou descalça no palco do Teatro Claro Rio – bossa talvez casual que pode ser entendida como alusão a Maria Bethânia, cantora que ganhou projeção nacional em fevereiro de 1965 ao substituir Nara Leão (1942 – 1989) no show Opinião ao lado de Zé Kétti e de João do Vale (1934 – 1996).

Sem evitar os sucessos do compositor, como Leviana (Zé Kétti, 1954) e Malvadeza durão (Zé Kétti, 1959), Teresa Cristina evidenciou a grandeza melódica do encontro do compositor com Elton Medeiros (1930 – 2019).

Da parceria, a artista cantou o samba-canção Mascarada (Zé Kétti e Elton Medeiros, 1964) – exemplo de requinte melódico e poético nas respectivas obras dos compositores – e Sorri (Zé Kétti e Elton Medeiros, 1965), obra-prima que Teresa tirou do baú há 17 anos em gravação para o álbum A vida me fez assim (2004) e que reviveu no show em momento luminoso.

Após exaltação de pastora da Mangueira em Peço licença (Zé Kétti, 1965), a exposição do júbilo de Portela feliz (Zé Kétti, 1963) preparou o clima folião de Amor de Carnaval (Zé Kétti, 1967) e abriu alas para a cintilante interpretação de Máscara negra (Zé Kétti e Pereira Matos, 1967), marcha-rancho cantada inicialmente como canção que, em andamentos alternados, evoluiu até chegar no pique animado dos bailes de Carnaval.

A abordagem foi tão feliz que, na apresentação de 6 de novembro, o público pediu Máscara negra em um segundo improvisado bis. A cantora atendeu o pedido e citou a marcha Pierrot apaixonado (Noel Rosa e Heitor dos Prazeres, 1935), do show anterior sobre Noel Rosa.

Sem perder a consciência social, Teresa Cristina cantou Zé Kétti com alegria carnavalesca.

♪ Eis o roteiro seguido por Teresa Cristina com o violonista Carlinhos Sete Cordas em 6 de novembro de 2021 na estreia carioca do show Teresa Cristina canta Zé Kétti no Teatro Claro Rio, na cidade do Rio de Janeiro (RJ):

1. Opinião (Zé Kétti, 1964)

2. O favelado (Zé Kétti, 1964)

3. Acender as velas (Zé Kétti, 1964)

4. Praça 11, berço do samba (Zé Kétti, 1973)

5. Poema de botequim (Zé Kétti, 1967)

6. Madrugada (Zé Kétti, 1965)

7. Amor passageiro (Zé Kétti e Jorge Abdala, 1951)

8. Em tempo (Zé Kétti e H. Nogueira, 1973)

9. O meu pecado (Zé Kétti e Nelson Cavaquinho, 1965)

10. Mascarada (Zé Kétti e Elton Medeiros, 1964)

11. Sorri (Zé Kétti e Elton Medeiros, 1965)

12. Leviana (Zé Kétti, 1954)

13. A voz do morro (Zé Kétti, 1955)

14. Malvadeza durão (Zé Kétti, 1959)

15. Peço licença (Zé Kétti, 1965)

16. Portela feliz (Zé Kétti, 1963)

17. Amor de Carnaval (Zé Kétti, 1967)

18. Máscara negra (Zé Kétti e Pereira Matos, 1967)

Bis:

19. Nega Dina (Zé Kétti, 1965)

20. Diz que fui por aí (Zé Kétti e Hortênsio Rocha, 1964)

Bis 2:

21. Máscara negra (Zé Kétti e Pereira Matos, 1967) – com citação de Pierrot apaixonado (Noel Rosa e Heitor dos Prazeres, 1935)


 

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